segunda-feira, 4 de junho de 2012


A estréia do cinema em terras brasileiras, ocorreu logo após a invenção dos irmãos Lumieri (28/12/1985), no Rio de Janeiro em 8 de junho de 1986. Como Paulo Emílio Gomes escreveu na época.
A novidade cinematográfica chegou cedo ao Brasil, e só não chegou antes devido ao razoável pavor que causava aos viajantes estrangeiros a febre amarela que os aguardava pontualmente cada verão. Os aparelhos de projeção exibidos ao público europeu no inverno de 1895-1896 começaram a chegar ao Rio de Janeiro em meio deste último ano, durante o saudável inverno tropical. No ano seguinte, a novidade foi apresentada inúmeras vezes nos centros de diversão da Capital, e em algumas outras cidades (GOMES, 1980: 28).

A chegada do cinema no Brasil, quase que imediatamente ao seu surgimento, não livrou o país da sua dependência na importação no setor. Como analisa Jean-Claude Bernardet:
O Brasil era fundamentalmente um país exportador de matérias-primas e importador de produtos manufaturados. As decisões, principalmente políticas e econômicas, mas também culturais, de um país exportador de matérias-primas, são obrigatoriamente reflexas. Para a opinião pública, qualquer produto que supusesse uma certa elaboração tinha de ser estrangeiro, quanto mais o cinema. O mesmo se dava com as elites, que tentando superar sua condição de elite de um país atrasado, procuravam imitar a metrópole. As elites intelectuais, como que vexadas por pertencer a um país desprovido de tradição cultural e nutridas por ciências e artes vindas de países mais cultos, só nessas reconheciam a autêntica marca de cultura (BERNARDET, 1978: 20).

Pensando em mercado, vale ressaltar, como era feito a distribuição dos filmes na época. Os filmes aqui produzidos ou que chegavam ao Brasil tinha dois modos de exibição, as salas de cinema nas principais cidades ou a possibilidade de exibição ambulante: “O cinematógrafo ganhou salas nas grandes cidades do Brasil, mas funcionava também como espetáculo de feira. Pelo país afora seguiam cinegrafistas itinerantes registrando coisas e projecionistas exibindo-as, bem como ao material importado de séries de filminhos de diversas proveniências” (FINGUERUT, 1986: 03).
Na metade do século 20, surgi a Visual Filmes de Adalberto de Almada Fagundes, produzindo o filme Quando Elas Querem (dir. Paulo Trincheira e E.C. Kerrigan, 1925). O filme não teve uma boa repercussão, fazendo assim a Visual ter que baixar as portas. Em 1932, no Governo Provisório de Getúlio Vargas, surge a 1ª legislação para cinema, com a lei 21.240 que tinha como uma das suas prerrogativas de diminuir os impostos sobre o filme e obrigar a passar filmes nacionais nas salas. Lei que era de exibição de curtas-metragens antes de longas-metragens estrangeiros, e não nacionais, como pretendiam. Somente em 1946 foi criada uma lei que obriga a três filmes nacionais serem exibidos em salas de cinema comerciais por ano. Essa lei foi a que fez com que o cinema nacional alavanca-se de tal forma que passasse a se tornar uma indústria e não mais uma arte.
Da década de 1965 a 1980, produziu-se quase 100 filmes por ano e isso fez com que surgissem empresas que regulamentassem essa indústria. Porém, foi em 1941 que nasce uma das maiores produtoras brasileiras de cinema, a Atlântida de Moacyr Fenelon, Edgar Brasil, Alionor Azevedo, José Carlos Burle e Arnaldo de Farias. Com a entrada de um novo sócio, dono do Jornal do Brasil, Conde Pereira Carneiro, a produtora conseguiu verbas para construir um estúdio e comprar equipamentos de segunda mão. A empresa, diferente das outras, teve como grandes produções, documentários e cine-jornais, colocando a história do país mais perto dos olhos do público. Dois anos depois, ela produz o seu primeiro longa-metragem de ficção com Grande Otelo, Moleque Tião (dir. José Carlos Burle), que narrava de maneira romântica a vida do ator. A produtora passou por filmes musicais, documentais, cine-jornais e ficção.
Foi a Atlântida que consolidou as chanchadas como o principal gênero do cinema brasileiro do ponto de vista comercial, e até por volta de 1960 este seria o gênero cinematográfico mais popular do Brasil (AUTRAN, on line).
No Brasil, na década de 1970, havia cerca de quase 4 mil salas de cinema e a média do público para ver o cinema nacional era de 30% do total. Hoje, a média caiu para quase 5%, muito provavelmente por causa do fechamento da única empresa pública que apoiava o cinema nacional que era a EMBRAFILME, em 1991, no governo Fernando Collor.
É a partir deste momento que o liberalismo econômico, impregnado ideologicamente, se faz transparecer. A retirada do Estado como agente regulador do setor cinematográfico no Brasil se fez abruptamente, gerando uma verdadeira panacéia em termos de possibilidade de controle e averiguação de dados, os quais, hoje, possam ser muito discutíveis. Este desmantelamento estrutural fez-se aparente em termos de produção fílmica com uma verdadeira paralisação das produções nos primeiros anos da década de 90.
Nos anos noventa, a indústria cinematográfica brasileira ressurge, após anos em decadência, com o filme “Carlota Joaquina, Princesa do Brasil” (1995) direção de Carla Carmurati, que é considerado a retomada do cinema nacional. O filme levou às salas de cinema de todo país, mais de um milhão de espectadores, encorajando outros cineastas – desanimados com o fim da EMBRAFILME – a voltar à ativa.
Na atualidade o cinema brasileiro realmente deu uma guinada em termos de quantidade e qualidade; conquistou uma parcela de público e passou a atuar no mercado de uma forma mais estratégica de modo a conseguir uma determinada penetração de mercado, seja no cinema ou nos formatos de vídeo ou DVD, ou até mesmo na televisão, com os Festivais Nacionais da Rede Globo ou o Canal Brasil. Há também a presença do cinema brasileiro na Internet, onde talvez o mais completo portal seja o www.cinemabrasil.org.br, o qual também é beneficiado pelas leis de incentivo. Um estudo específico sobre as possibilidades mercadológicas do cinema nacional estar explorando estas novas tecnologias e formatos poderia se tornar um interessante objeto de pesquisa.
Sérgio Rizzo observa que a participação do filme nacional para 2002 ficou em torno de 8%, e projeta-se para 10% tal participação em 2003.
Uma visão panorâmica é dada por Bianca de Felippes:
Acho que é assim, tudo uma questão de oportunidade, a gente tem aqui bons talentos, você vê hoje, o Festival de Cinema tem ótimos filmes, dos mais diversos temas, desde a comédia, drama; tem ficção, tem de tudo; têm documentários maravilhosos. Então assim, a gente está conseguindo fazer muita coisa boa; aumentando a qualidade e a quantidade, geralmente quando aumenta muito a quantidade a qualidade cai, não tem tanta coisa boa, então assim, eu conto nos dedos os filmes que não são bons. Os filmes que estão sendo feitos são de tudo quanto é tipo diferente, do mais cabeça ao mais comercial. Com uma ótima qualidade de imagem, técnica de som, acho que isto é uma coisa muito legal, porque atinge diretamente o público. O público quando for assistir a um filme bom como o Cidade de Deus, ou como Madame Satã, que eu vi agora. Então o público volta para ver outro, então quanto mais filmes bons a gente estiver fazendo, melhor para o nosso cinema, mais público a gente vai ter. E conquistando um pouco deste mercado, que ainda está pequeno mas está em expansão (FELIPPES, 2002).
Bernadette Lyra define o cinema da retomada como de qualidade e fortemente ligado ao mercado:
É o cinema da retomada, o que é que eu estou dizendo, talvez temerária, mas eu estou dizendo, que o cinema da retomada, que você está perguntando é um cinema voltado para a indústria, voltado para o mercado, com temas brasileiros tratados de modo internacional. Acabou o som vagabundo, acabou o enquadramento qualquer, acabou a câmera qualquer, tem-se uma equipe super e nessa equipe super, o fotógrafo ganhou um papel de destaque total, o fotógrafo agora é quase que o rei do filme (LYRA, 2002).
Visão esta praticamente compartilhada por Paulo Santos Lima:
O cinema mudou um pouco de cara, no sentido que perdeu aquela mácula de cinema pornográfico, de cinema mal feito. O cinema começou a investir em criar uma imagem mais atrativa, no sentido global, mundial. Mas como estão fazendo isso? Diversificando a produção, procurando um esmero técnico mais plugado, sintonizado com o que estava sendo feito em termos de produção industrial cinematográfica (LIMA, 2002).

Alguns jornalistas, críticos, teóricos e cineastas, tentam entender o que faz um filme fazer sucesso e outros não, se baseando no fenômeno de público, após a crise do audiovisual, como “Carlota Joaquina”. Outros filmes foram feitos depois de Carlota e também fizeram muito sucesso, como é o caso de “Lisbela e o Prisioneiro” (2003), de Guel Arraes, com um público de 3.174.643, “Cidade de Deus” (2002), de Fernando Meireles com 3,370,871, “Se Eu Fosse Você” (2006), de Daniel Filho, com 3.664.618, “Carandiru”, de Hector Babenco, com 4.693.853 e “2 Filhos de Francisco”, de Breno Silveira, com 5.319.667. O filme de Breno é até hoje considerado o filme nacional com maior bilheteria.
Atualmente, o mercado cinematográfico nacional, conta com leis de incentivo como a Lei do Audiovisual e a ANCINE, órgão criado para substituir à antiga EMBRAFILME, fazendo com que o cinema brasileiro, que já foi um dos maiores produtores do mundo, alcançasse novamente o mercado nacional e até internacional, chegando a ser indicado para prêmios como Oscar, Cannes e Berlim.
Filmes que depois de Collor foram feitos em no máximo 10 por ano, passaram a se produzir em larga escala, se apoiando em leis de incentivo cultural nacionais, estaduais e municipais. Com a verba da lei, muitos cineastas conseguiram crescer e produzir alguns poucos filmes, aparecendo no cenário nacional.
A indústria, no entanto, passou a interagir com novos meios para difundir, o já existente produto cultural audiovisual nacional. As indústrias cinematográficas, aproveitando o boom que o filme nacional conseguiu no país, se aliaram a empresas de tecnologia, comunicação e outros produtos, a fim de levar para o público os produtos dos filmes de maneira a ampliar as vendas, já que os filmes nacionais estavam fazendo sucesso.
A partir daí então, começam a surgir novas empresas no mercado querendo trabalhar com audiovisual e, surpreendentemente, tomam os meios de comunicação, fazendo-se ativo novamente. Empresas de comunicação nacionais como Globo, SBT, Record e Bandeirantes, passam a criar suas próprias empresas de cinema como é caso da Globo Filmes que assina a produção de quase 70% dos filmes de maior sucesso nacionais, e faz com que a indústria do cinema se modernize e atinja outros meios, como a internet, cineclubes, celulares, se apropriando de novas mídias como a tecnologia do HD (High Definition), tendo assim a possibilidade de colocar os filmes em lugares que pareciam improváveis e até baratear os custos de produção.
Do ponto de vista mercadológico o cinema brasileiro alcança certo patamar de sucesso, ao longo de sua história, quando interesses de produtores, distribuidores e exibidores tendem a se aproximar.
Sob os aspectos legais o cinema nacional, também se desenvolve, quando há uma série de leis que regulamentem e criem uma reserva de mercado destinada ao filme brasileiro.
Atualmente, sob os auspícios das leis de incentivo à cultura e uma certa abertura de mercado à penetração do filme nacional percebe-se algo de novo: a produção nacional parece ter aprendido a lição do mercado. Os filmes nacionais não se dirigem exclusivamente ao circuito cultural, há uma busca por mercado e retorno financeiro.
Neste sentido, percebe-se um movimento de alta no panorama do cinema brasileiro, cabe ao governo, aos agentes culturais e aos próprios cineastas não deixar esta ascensão do cinema no Brasil se tornar mais um ciclo, com começo, meio e fim.
Uma hipótese para toda essa ascensão do mercado de cinema nacional que acabou gerando maiores incentivos por parte das empresas privadas e do próprio governo nos últimos anos, além de toda uma melhoria na qualidade técnica, tanto na pré-produção, produção e pós-produção dos projetos, seria a questão da familiaridade e ambientalisação de toda a narrativa cinematográfica com seu publico. Esta familiaridade acaba proporcionando, uma aproximação do telespectador com os personagens e a enredo da trama, causando uma identificação com sua própria história de vida. Podemos citar dois exemplos de filmes com sucesso de bilheteria como: “Dois filhos de Francisco”, cuja, a história é de uma família de lavradores que tenta ganhar a vida na cidade grande com o talento dos filhos, “Cidade de Deus” vem com a narrativa da imigração de pessoas de varias partes do interior brasileiro em busca de uma vida melhor na cidade, ambos os filmes se utilizam desta estratégia de interação para prender a atenção do telespectador.





REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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MAGALHÃES FILHO. José Soares de. Breve história da evolução da linguagem audiovisual pelo século XX. Vitória, 2005.
MARTINS, José Pedro. Brasil: morte de da crítica e colapso da cultura, mai. 2001.
RIBEIRO, Felipe de Oliveira. Plano Nacional de Cultura: estudo sobre a indústria cinematográfica brasileira. Brasília: SPC, 2007.
AUTRAN, Arthur. A questão da indústria cinematográfica brasileira na primeira metade do século. Disponível em: http://www.mnemocine.com.br/cinema/historiatextos/arturBras.html Acesso em: 15 jun. 2010.
BARBOSA, Carolina. Apex e Siapesp renovam programa Cinema do Brasil. Disponível em: http://www.telaviva.com.br/News.asp?|D=171356   Acesso em: 15 jun. 2010.
FIGUEIREDO, Alexandre. Cinema Brasileiro nos anos 90: Crise e Retomada <http://geocities.yahoo.com.br/adeusanosnoventa/crise_cinema.htm>

Artigo A retomada, os anos 90 do Cinema Brasileiro, de Aluizio Moreira Filho. http://cinepoetica.com/primeira/artigo_a-retomada.htm
Artigo A Retomada do Cinema Brasilieor, de Lucas Murari
http://www.cineplayers.com/artigo.php?id=47

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